domingo, 14 de março de 2010

O Enredo

Talvez a vida seja mesmo como uma folha em branco, na qual a nossa história é contada em verso e prosa.

No começo, a folha na qual se escrevem as primeiras linhas de nossa existência somos nós mesmos. Os traços de nossa personalidade vão se insculpindo em nosso caráter. Trata-se de uma introdução que não permite muitas previsões quanto ao rumo que a história vai tomar; em contrapartida, é nessa fase que se começa a tomar gosto pelo enredo.

Em um segundo momento, embora tenhamos a ilusão de que somos os autores, somos na verdade a caneta que rabisca, nem sempre com exatidão, as palavras que compõe as passagens mais variadas de nosso existir. Nessa fase é comum se verificarem trechos, como que, em acabando a tinta, percebem-se espaços em branco. Tais espaços, contudo, não deixam de conter algum significado.

Desenvolvemos-nos e chegamos há uma terceira fase, na qual deixamos de ser caneta e assumimos a função de palavras. Isso mesmo, nós somos as próprias palavras da nossa própria história. Tudo em nós resume o que somos. Alguns chamam erroneamente essa fase de maturidade. Todos os nossos atos são cuidadosamente pensados para que os outros tenham a perfeita percepção de quem realmente somos. Temos pseudônimos que valem mais do que nosso nome, e que, parecem sintetizar tudo o que vivemos até o momento e o que pretendemos viver para diante. Tudo isso nos faz seguros, como se já tivéssemos alcançado o topo, como se representássemos o ápice, não só da nossa própria, mas da história da humanidade. Fase perigosa essa, pois, nos esquecemos que toda história pra ser boa, carece de uma conclusão, que se não for bem elaborada, põe a perder todo o enredo.

Ao final da vida, voltamos ser a folha na qual se escreveu a nossa história. As marcas do tempo estão impressas em nós. Nossas tristezas, alegrias, dissabores, vitorias... Momentos bons e ruins conjugados em um livro que está perto de ser fechado.

Agnaldo Borcath

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