quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O PORTADOR DE NECESSIDADES ESPECIAIS E O MEIO EVANGÉLICO

INCLUSÃO E ACESSIBILIDADE SOB UM ENFOQUE EVANGELÍSTICO
Por: Agnaldo Borcath
Se um deficiente auditivo entrar na igreja onde você congrega, ele terá condições de acompanhar a liturgia do culto? Haverá alguém que torne para ele compreensível a Palavra de Deus? E um cadeirante, terá condições de acessar ao templo e de nele circular com facilidade? O departamento de evangelismo da sua denominação tem alguma estratégia definida para levar para Cristo pessoas com necessidades especiais? O departamento de ensino de sua igreja tem pensado a respeito da implementação de materiais didáticos diferenciados para pessoas com dificuldades visuais?
Este trabalho tem como objetivo precípuo conscientizar os evangélicos de nossos dias a cerca da importância da acessibilidade e da inclusão de pessoas com necessidades especiais (PNE) em nosso meio.
Hoje, mesmo com todo o avanço da medicina, os portadores de necessidades especiais representam um número considerável em nossa sociedade e eles não podem ficar excluídos das nossas comunidades evangélicas. Nós temos a responsabilidade de trazer o maior número possível de pessoas para Cristo, para tanto, precisamos usar todos os meios possíveis para que todos sejam alcançados pela Palavra de Deus.
Não pretendemos com o presente escrito, esgotar tecnicamente o tema, uma vez que trata-se de um assunto riquíssimo em nuances. O que efetivamente pretendemos é lançar uma semente de reflexão, que se cair em solo fértil, com toda certeza, poderá gerar muitos frutos.
Esperamos que a discussão proposta neste sucinto estudo, de alguma forma, venha contribuir no sentido de que se traga o tema “acessibilidade e inclusão de pessoas com necessidades especiais” para as reuniões de nossas igrejas, e que, com isto se elaborem estratégias no sentido de alcançar estas vidas para o Reino de Deus.
Que o Senhor nos abençoe nesta tarefa árdua, porém, sobremodo satisfatória.

2 UMA REFLEXÃO BÍBLICA A CERCA DO TEMA

2.1 O CARATER UNIVERSAL DA MENSAGEM DE CRISTO

No afã de buscarmos uma compreensão contextualizada do que representa a questão da inclusão dos portadores de deficiência no meio evangélico, se faz mister relembrarmos a cerca do caráter universal do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Jesus deixou para a igreja uma grande responsabilidade, qual seja, a de transmitir a palavra de Salvação aos perdidos de todo o mundo (Marcos 16:15)[1]. É possível perceber de pronto, que o imperativo de Jesus traz no seu conteúdo três verdades muito importantes: a primeira diz respeito ao campo territorial de atuação dos mensageiros das boas novas, o Evangelho deve ser pregado "...por todo o mundo..."; a segunda verdade é com relação aos destinatários da pregação evangélica, o Evangelho deve ser pregado "...a toda criatura..."; a terceira, está implícita, trata-se do aspecto temporal, em que se depreende que a ordem de Jesus não está restrita aos crentes da época em que foi proferida, mas, transcendendo a história, chega até à Igreja de nossos dias com o mesmo poder vinculante.[2]
Estas três verdades denotam o caráter universal da mensagem evangelística.

2.2 A POSTURA DA IGREJA PRIMITIVA COM RELAÇÃO À EVANGELIZAÇÃO

Quando se observa a postura da primeira igreja, percebe-se que logo de início, ela não conseguiu compreender o caráter universal da mensagem de Cristo. Os primeiros cristãos, inclusive os Apóstolos, entenderam, em um primeiro momento, que Jesus tinha vindo somente para os judeus, sendo assim, os gentios não teriam direito à salvação (Atos 10:45)
[3]. Em um segundo momento, já compreendendo que os gentios poderiam ser salvos, ainda houve quem imaginasse que a salvação dos tais estava condicionada ao cumprimento integral das leis de Moisés, como a circuncisão, por exemplo.
Entretanto, o Senhor desfez este mal entendido - não sem um pouco de resistência por parte dos judeus -, mostrando para os líderes da igreja primitiva, que aos gentios, Deus também concedera a oportunidade de receber o perdão dos pecados, precisando para tanto, apenas que se arrependessem de seus pecados, se abstivessem da idolatria e das carnes sacrificadas aos ídolos. Enfim, o mandamento era igual para todos os cristãos, quanto a observância da sã doutrina dos apóstolos, sem contudo, a imposição de procederem com os rituais judaicos (Atos 11:18)[4].

2.3 A IMPORTÂNCIA DA CHAMADA MISSIONÁRIA DE PAULO

O chamado de Paulo, que passou de perseguidor a pregador do Evangelho, foi indubitavelmente, um ponto fundamental para que o propósito de salvação de Deus quanto aos não judeus pudesse se concretizar, pois, foi a partir das incursões deste apóstolo entre os gentios, que os crentes compreenderam, de uma vez por todas, que a Mensagem da cruz tem um sentido universal, no sentido mais amplo do conceito.
Isto porque Paulo, desde sua conversão, já fora incumbido, pelo próprio Senhor, de levar os gentios à salvação (Atos 9:15)[5].
Como fruto da ação missionária, de caráter universal, dos primeiros séculos da igreja, hoje o cristianismo está presente em todas as partes do mundo. Também em virtude do trabalho dos primeiros evangelistas, principalmente de Paulo, “o apóstolo dos gentios”, nós aqui no Brasil podemos dizer que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai.

2.4 O CARATER UNIVERSAL DO EVANGELHO E OS PORTADORES DE NECESSIDADES ESPECIAIS

Em nossos dias, mesmo com a consciência do caráter universal da missão evangélica, existem ainda muitos que estão privados da mensagem de salvação: são as pessoas portadoras de necessidades especiais, que em muitos dos nossos templos são impedidas de entrar, em virtude das barreiras arquitetônicas; há também aqueles, (os portadores de deficiência auditiva) que não conseguem ter acesso à pregação, pois esta, em muitos casos, somente é pregada para aqueles que possuem audição perfeita.
A igreja continua sob a égide do “ide” de Jesus, tendo a responsabilidade de elaborar estratégias evangelísticas que venham abarcar a todas as pessoas, inclusive aquelas que são portadoras de necessidades especiais.
Portanto, a questão da inclusão de pessoas com necessidades especiais, para as igrejas evangélicas, é muito mais do que uma bandeira política, é uma questão de obediência integral à Palavra de Deus.

2.5 UM EXEMPLO NA BÍBLIA DE COMO A IGREJA DEVE ENCARAR À QUESTÃO

No Evangelho de Marcos (cap. 2:1 – 12)
[6], encontramos uma passagem que nos traz um ensinamento bastante consistente a cerca da importância que devemos dar ao acesso dos portadores de necessidades especiais à mensagem do Senhor. As Sagradas Escrituras nos dizem que Deus abençoou um homem paralítico, considerando a fé de quatro homens que não mediram esforços para conduzi-lo até onde Jesus estava.
É possível depreender-se do texto bíblico, que havia no local uma grande dificuldade impedindo qualquer pessoa de se aproximar do Mestre, a saber, o grande número de pessoas que se encontrava no recinto. Some-se a isto, a impossibilidade natural do paralítico de aproximar-se de onde o Senhor pregava e se perceberá, que somente com uma estratégia bem definida, aquele homem receberia o milagre que tanto precisava.
Analisemos, pois, as circunstâncias que fizeram com que aqueles homens introduzissem o paralítico na presença de Jesus.

2.5.1 Percepção de uma necessidade geral

Para que se faça algo em benefício de outrem, antes de mais nada, é necessário que se tenha sensibilidade quanto às necessidades das pessoas. É mister que se perceba o problema para que se possa buscar uma solução. Aqueles quatro homens foram sensíveis ao sofrimento daquele que não podia andar e, uma vez que eles tinham fé que a cura estava na pessoa de Jesus Cristo, esforçaram-se no sentido de que aquele problema fosse resolvido.
A igreja, uma vez sabendo que a cura para o ser humano está em Jesus, precisa ser sensível a necessidade de salvação que carrega todo aquele que não conhece o Senhor, para envidar todos os esforços no sentido de que todos venham a ter um encontro com Deus.

2.5.2 Percepção de uma necessidade específica

Na ocasião em que o Mestre pregava em Cafarnaum, aquele paralítico não era o único que carecia do favor do Senhor, entretanto ele tinha uma dificuldade extra, a saber, o fato de não conseguir chegar por conta própria até o lugar da benção. Ele não poderia fazer como a mulher que tinha um fluxo de sangue, que foi até Jesus para tocá-Lo e ser curada (Lc 8:44)
[7], ele carecia de um tratamento especial por parte de alguém.
Os homens que o auxiliaram foram sensíveis a esta necessidade específica, ou seja, eles entenderam que mais do que anunciar que Jesus curava, eles tinham a obrigação de se tornarem o acesso daquele homem à presença do Salvador.
Para que a Palavra de Deus alcance efetivamente a todos os corações, é preciso que entendamos que a pregação é destinada para diferentes tipos de pessoas, muitas vezes com necessidades particulares, e que está com a igreja, a responsabilidade de empreender um esforço extra, no afã de introduzir estas pessoas na presença do Senhor.
Aquele que se dedica em aprender Teologia, para pregar com mais conhecimento, quem sabe pode também dedicar um pouco mais de tempo e dinheiro para aprender LIBRAS[8], uma ferramenta que será muito útil quando houver a necessidade de evangelizar um portador de deficiência auditiva. As grandes denominações que investem grandes quantias na construção de lindos templos,- o que é legítimo e necessário -, precisam ter a sensibilidade de projetar os tais templos com uma infra-estrutura que facilite o acesso de cadeirantes, idosos, cegos, etc., às suas dependências.
Não podemos nos conformar com pessoas fora da igreja, sem poderem entrar; batalhemos, pois, com o objetivo de que ninguém fique à margem da Mensagem da verdade! Façamos como fizeram Pedro e João, estendamos a mão para que aquele que está na porta do templo, possa entrar, saltando e glorificando ao Senhor (Atos 3:7 e 8)[9].

2.5.3 Esforço coletivo

Assim como foram necessários quatro homens para introduzir o paralítico na presença de Jesus, somente conseguiremos alcançar os nossos irmãos que são portadores de necessidades especiais, se tivermos a consciência de que este é um trabalho que deve ser realizado em conjunto. Todo o corpo de Cristo deve empenhar-se para que estas pessoas tenham acesso às boas novas de salvação. Todos os departamentos da igreja que trabalham voltados para uma faixa etária devem estar preparados para que a criança, o adolescente ou o jovem portador de necessidades especiais, que por ventura queira ingressar no grupo, tenha as condições facilitadas para isso.

2.5.4 O reconhecimento por parte do Senhor

Uma vez concluído todo o esforço humano, vem o agir sobrenatural de Deus.
Aqueles homens conseguiram com muito trabalho introduzir o paralítico na presença de Jesus, o qual, atentando para a fé deles, ministrou a cura para a alma e para o corpo daquele homem.
Precisamos crer que o Senhor é o mesmo que operou miraculosamente no passado e empenharmos todos os esforços com o intuito de trazermos o maior número de vidas para a Sua presença. Se assim o fizermos, com toda certeza veremos, cada vez com mais freqüência, o agir de Deus levantando pessoas das cadeiras de rodas, dando vista aos cegos, concedendo audição aos surdos e coisas ainda maiores que estas, “...porque Deus é quem opera em [nós] tanto o querer quanto o efetuar, segundo a Sua boa vontade...” (Felipenses 2:13).

3 A IMPORTÂNCIA DO TEMA

3.1 PARA A SOCIEDADE BRASILEIRA

A sociedade brasileira cada vez mais tem se voltado para as questões que evolvem a integração do PNE nos diversos meios sociais: no mercado de trabalho, nos estabelecimentos educacionais, nos órgãos públicos, etc. Cada vez mais tem-se promovido debates que tratam do tema. A consequência disto é que o conjunto normativo pátrio que trata a respeito da questão é considerado referência para todo o mundo.
Entretanto, embora seja importante um conjunto normativo que trate da questão, é extremamente necessário que a sociedade como um todo se dedique a promover a integração do portador de necessidades especiais. É fundamental que o Estado faça a sua parte no sentido de garantir que os direitos do portador de deficiência sejam respeitados.
Os cidadãos, juntamente com as entidades de classe, precisam se conscientizar que a promoção da inclusão social é um dever, não só dos entes federativos, mas de todos nós.
Os direitos dos portadores de necessidades especiais, não são nenhum tipo de favor ou de benevolência do legislador, antes pelo contrário, é uma forma de equiparação, onde se visa alcançar materialmente o direito fundamental previsto na Constituição que trata da igualdade. Trata-se de se observar o princípio da isonomia real, preconizada por Platão e depois consagrada por Ruy Barbosa, consistente em dar igual tratamento aos iguais e desigual tratamento aos desiguais, na medida de suas desigualdades.

3.2 PARA A IGREJA

Segundo dados recentes do IBGE
[10], cerca de 24,6 milhões de brasileiros possuem algum tipo de anomalia física, o que representa aproximadamente 14,5 % da população de nosso país. São pessoas com ao menos alguma dificuldade de enxergar, ouvir, locomover-se ou alguma deficiência física ou mental.
Cerca de 16,6 milhões de pessoas possuem algum grau de deficiência visual, onde quase 150 mil delas se declararam cegas. Já o número de pessoas que possuem algum grau de deficiência auditiva chega a cerca de 5,7 milhões de brasileiros, em que aproximadamente 170 mil delas se declararam surdas.
É importante destacar que a proporção de pessoas portadoras de deficiência aumenta com a idade, passando de 4,3% nas crianças até 14 anos, para 54% do total das pessoas com idade superior a 65 anos. A medida que a estrutura da população está mais envelhecida, a proporção de pessoas com deficiência aumenta, surgindo um novo elenco de demandas para atender as necessidades específicas deste grupo.
Cabe à igreja do Senhor estar atenta, para que os portadores de necessidades especiais que, como observado, representam um número considerável de pessoas, possam contar com um tratamento adequado em nosso meio.
Portanto, aos líderes religiosos é imperioso, em primeiro lugar que se informem a respeito do assunto, e em segundo lugar, que unam todos os esforços para que os portadores de necessidades especiais sintam-se bem à vontades para ingressarem em suas comunidades, mais do que isto, para que se sintam impelidos a se tornarem cristãos.
Destarte, é preciso que se faça uma reflexão com muito carinho quanto a questão da acessibilidade dos portadores de necessidades especiais no meio cristão, afinal, trata-se de um grupo que compõe uma parcela considerável da nossa sociedade.e que precisa de uma atenção especial por parte da Igreja. Doutro modo, a igreja não estará cumprindo integralmente a missão de caráter universal que nos deixou o Mestre.
A igreja tem pelo menos duas razões para abraçar a bandeira da inclusão:
a) a igreja enquanto pessoa jurídica, fazendo parte da sociedade brasileira e estando sujeita à legislação do Brasil, não pode ficar alheia aos movimentos sociais que ocorrem a sua volta.
b) a igreja, enquanto ente espiritual, tendo em vista o grande propósito do Senhor quanto a salvação da humanidade, tem a obrigação de tornar acessível a Palavra de Deus a todos. A inclusão dos portadores de necessidades especiais faz parte do escopo missionário que foi deixado como imperativo para os cristãos
[11].
Muito embora existam muitas comunidades evangélicas que se preocupam com a acessibilidade das pessoas portadoras de necessidades especiais, realizando trabalhos interessantes neste sentido, ainda há uma carência muito grande de conhecimento a respeito do tema. Por vezes, as infra-estruturas dos templos não são adequadas para que estas pessoas sejam recebidas adequadamente. Não são poucas as igrejas em cujas edificações não existem rampas de acesso para cadeirantes, ou que não possuem em seus quadros de cooperadores pessoas capacitadas para reproduzir as palavras ditas dos púlpitos para deficientes auditivos, através da Linguagem Brasileira de Sinais (LIBRAS). E, há também uma carência muito grande de métodos de evangelização que atinjam eficazmente os portadores de necessidades especiais.

4 O QUE É SER PNE DE ACORDO COM A LEGISLAÇÃO BRASILEIRA

Os portadores de necessidades especiais são aqueles que possuem algum tipo de anomalia física, psíquica ou fisiológica, em virtude da qual, encontra dificuldades para o desempenho de alguma atividade dentro do padrão considerado normal para o ser humano.
Entretanto, para efeito deste estudo, convém destacar a observação do jurista e professor Roberto Bolonhini Junior que, em excelente trabalho sobre os direitos das pessoas com necessidades especiais salienta que:

"...Ser portador de necessidades especiais não implica necessariamente, ter uma anomalia física visível, como a falta de um membro ou, ainda, ter cegueira absoluta, deficiência mental, etc. Ser deficiente, muitas vezes, é ser aparentemente perfeito física e psiquicamente, embora apresente uma anomalia imperceptível...".
[12]
De acordo com este entendimento, conclui-se que uma pessoa que, por exemplo, possui insuficiência renal, pode ser considerada, do ponto de vista jurídico, pessoa com deficiência.
Segue este mesmo entendimento o constitucionalista Luiz Alberto David Araujo:

"O que define a pessoa portadora de deficiência não é a falta de um membro nem a visão ou audição reduzidas. O que caracteriza a pessoa portadora de deficiência é a dificuldade de se relacionar, de se integrar na sociedade. O grau de dificuldade para a integração social é que definirá quem é ou não portador de deficiência".
[13]

Para efeito de nosso estudo, trataremos com mais cuidado das deficiências que geram uma atenção maior quanto a questão da acessibilidade. Para tanto, analisemos a questão sob o ponto de vista da legislação brasileira.
O Decreto 3 298 de 20 de dezembro de 1999, (que regulamenta a Lei 7 853, de 24 de outubro de 1989, que dispõe sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, consolida as normas de proteção, e dá outras providências), em seus artigos 3o e 4o, aponta uma classificação que demonstra diferenças entre deficiência, deficiência permanente e incapacidade. O Decreto em tela, também elenca os diversos tipos de deficiências, tais como a física, mental, auditiva, visual e múltipla.[14]
Posto isso, podemos afirmar que:
a) Deficiência – é toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica que gere incapacidade para o desempenho de atividades, dentro do padrão considerado normal para o ser humano;
b) deficiência permanente – aquela que ocorreu ou se estabilizou durante um período de tempo suficiente para não permitir recuperação ou ter probabilidade de que se altere, apesar de novos tratamentos; e
c) incapacidade – uma redução efetiva e acentuada da capacidade de integração social, com necessidade de equipamentos, adaptações, meios ou recursos especiais para que a pessoa portadora de deficiência possa receber ou transmitir informações necessárias ao seu bem-estar pessoal e ao desempenho de função ou atividade a ser exercida.
Quanto aos tipos de deficiência, podemos apontar que:
1) deficiência física - alteração completa ou parcial de um ou mais segmentos do corpo humano, acarretando o comprometimento da função física, apresentando-se sob a forma de paraplegia, paraparesia, monoplegia, monoparesia, tetraplegia, tetraparesia, triplegia, triparesia, hemiplegia, hemiparesia, ostomia, amputação ou ausência de membro, paralisia cerebral, nanismo, membros com deformidade congênita ou adquirida, exceto as deformidades estéticas e as que não produzam dificuldades para o desempenho de funções;
2) deficiência auditiva - perda bilateral, parcial ou total, de quarenta e um decibéis (dB) ou mais, aferida por audiograma nas freqüências de 500HZ, 1.000HZ, 2.000Hz e 3.000Hz;
3) deficiência visual - cegueira, na qual a acuidade visual é igual ou menor que 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; a baixa visão, que significa acuidade visual entre 0,3 e 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; os casos nos quais a somatória da medida do campo visual em ambos os olhos for igual ou menor que 60o; ou a ocorrência simultânea de quaisquer das condições anteriores;
4) deficiência mental – funcionamento intelectual significativamente inferior à média, com manifestação antes dos dezoito anos e limitações associadas a duas ou mais áreas de habilidades adaptativas, tais como: a) comunicação;
b) cuidado pessoal;
c) habilidades sociais;
d) utilização dos recursos da comunidade;
e) saúde e segurança;
f) habilidades acadêmicas;
g) lazer; e
h) trabalho;
5)deficiência múltipla – associação de duas ou mais deficiências.
Se faz necessário anotar que o rol supra citado tem caráter meramente exemplificativo, não tem o condão portanto, de elencar como que de uma forma definitiva, todas as possibilidades de tipos de deficiência.

5 ACESSIBILIDADE

5.1 CONCEITO

Muitas pessoas imaginam que acessibilidade refere-se apenas ao acesso físico de pessoas com limitações motoras a espaços públicos. Na verdade o conceito é muito mais abrangente, acessibilidade diz respeito a garantia que o portador de necessidades especiais precisam ter de participar efetivamente do contexto social.
Sem acessibilidade não há, para a pessoa com deficiência, a plena liberdade de locomoção, que é uma garantia fundamental prescrita pela Constituição Federal. Se os meios de comunicação não pensarem em acessibilidade, o PNE fica privado do completo acesso à informação. Se a igreja, - trazendo a discussão para o nosso contexto -, não desenvolver ações que promovam a acessibilidade, muitas pessoas ficaram alijadas da Mensagem de salvação.
Com efeito, acessibilidade é a possibilidade que a pessoa com deficiência tem de acesso aos espaços físicos e aos meios de comunicação, através da eliminação de barreiras arquitetônicas ou naturais, ou seja, é a possibilidade que ela tem de se desenvolver sadiamente enquanto pessoa humana.
No que tange ao ambiente cristão, a discussão vai mais além, acessibilidade significa oferecer ao PNE uma completa e adequada possibilidade de desenvolvimento social e espiritual.

5.2 A QUESTÃO DAS BARREIRAS ARQUITETÔNICAS

Uma vez que um dos principais enfoques da mensagem evangélica é a liberdade existente na pessoa de Jesus, a eliminação de barreiras arquitetônicas que impossibilitam ou dificultam o ingresso de pessoas com necessidades especiais nos templos evangélicos, deve ser incluída como prioridade no rol de metas a serem alcançadas pela igreja. Isto porque, o enfoque aqui é a liberdade de locomoção que deve ser garantida ao PNE, aquilo que convencionou-se denotar como o direito de ir e de vir.
Para uma definição um pouco mais acurada a cerca do que sejam barreiras arquitetônicas, nos valemos dos escritos dos professores Olney Queiroz Assis e Lafayette Pozzoli que citam a urbanista Adriana Romeiro de Almeida Prado:

"Barreiras são obstáculos que dificultam, principalmente, a circulação de idosos e pessoas com deficiência, entendendo-se aquelas que andam em cadeiras de rodas, com muletas ou bengalas, que têm dificuldade na marcha, que possuem redução ou perda total na visão ou audição e, até mesmo, os indivíduos que apresentam uma redução na capacidade intelectual".
[15]
Quando estes obstáculos estão em edificações, denominam-se barreiras arquitetônicas.
No entanto, é importante que se perceba que tais barreiras não se concentram somente na parte interna dos templos, mas também nos seus internos.
Podemos relacionar, a título exemplificativo, como barreiras arquitetônicas: escadas, banheiros sem a largura necessária para que um cadeirante possa utilizá-lo adequadamente, objetos no caminho que não podem ser detectados pelos cegos, etc.
As igrejas devem pensar o problema tendo em vista duas frentes de atuação:
a) quanto aos templos que já foram construídos há muito tempo - deve-se gradativamente promoverem-se adaptações, tais como, substituição de escadas por rampas; adaptação de banheiros para que se facilite o acesso de cadeirantes; colocação de pista tátil, para que se facilite a locomoção de pessoas cegas, etc.;
b) quanto às construções futuras e em andamento - deve-se, no momento da elaboração dos projetos, planejar a questão da acessibilidade, para que o novo templo já tenha uma infra-estrutura adequada.
Com a eliminação das barreiras arquitetônicas, as igrejas tornam-se lugares aconchegantes, onde todos, com necessidades especiais ou não, podem cultuar ao Senhor com total liberdade e alegria. Sem dúvida esta é a vontade de Deus, pois Ele “... não faz acepção das pessoas de príncipes, nem estima o rico mais do que o pobre; porque todos são obras de suas mãos”. (Jó 34:19)

6 CONCLUSÃO

À igreja, não cabe tão-somente uma responsabilidade social quanto às pessoas portadoras de necessidades especiais. A igreja é, a cima de tudo, uma agência do céu aqui na terra, como tal tem o dever de prestar tutela espiritual para todos aqueles que necessitam. Por tal motivo, as portas da igreja devem estar escancaradas, para que quem quer que seja, possa entrar e desfrutar das bênçãos do Senhor.
Quem abre as portas da igreja para os de fora somos nós os que participamos da congregação. Não podemos pois, abrirmos as portas para alguns e fecharmos para outros.
Talvez na sua denominação nunca entrou alguém com as características aqui apontadas, razão pela qual, você pode até estar pensando: “esta reflexão não se enquadra com a minha congregação”.
É possível que o motivo pelo qual nunca tenha entrado um PNE em sua comunidade, esteja relacionado justamente com as razões aqui apontadas. Neste caso, a sua igreja esteve este tempo todo com as portas fechadas para as pessoas portadoras de necessidades especiais.
Compartilhemos em nossos dias da mesma visão que tinha o Apóstolo Paulo nos primeiros séculos da igreja: “... Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns”. (1 Coríntios 9:22)

“E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda a boa obra”. (2 Coríntios 9:8)

[1] Todas as referências bíblicas estão de acordo com a tradução para o português feita por João Ferreira de Almeida – Ed. Revista e Corrigida da SBB.
[2] “E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura”.
[3] E os fiéis que eram da circuncisão, todos quantos tinham vindo com Pedro, maravilharam-se de que o dom do Espírito Santo se derramasse também sobre os gentios.
[4] “E, ouvindo estas coisas, apaziguaram-se, e glorificaram a Deus, dizendo: Na verdade até aos gentios deu Deus o arrependimento para a vida”.
[5] “Disse-lhe, porém, o Senhor: Vai, porque este é para mim um vaso escolhido, para levar o meu nome diante dos gentios, e dos reis e dos filhos de Israel”.
[6] “E vieram ter com ele conduzindo um paralítico, trazido por quatro. E, não podendo aproximar-se dele, por causa da multidão, descobriram o telhado onde estava, e, fazendo um buraco, baixaram o leito em que jazia o paralítico. E Jesus, vendo a fé deles, disse ao paralítico: Filho, perdoados estão os teus pecados”.
[7]“Chegando por detrás dele, tocou na orla do seu vestido, e logo estancou o fluxo do seu sangue”.
[8] Linguagem Brasileira de Sinais.
9 “E, tomando-o pela mão direita, o levantou, e logo os seus pés e artelhos se firmaram. E, saltando ele, pôs-se em pé, e andou, e entrou com eles no templo, andando, e saltando, e louvando a Deus”.
[10] Censo 2000 do IBGE. Dados extraídos do Site: www.ibge.gov.br em 22/05/2009
11 “E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura”.
[12] BOLONHINI JUNIOR, p. 45, 2004.
[13] ARAUJO, p.24, 1994.
[14] www.planalto.gov.br/legislação/decreto. Consultado em 15/05/2009.
[15] ASSIS, Olney Queiroz; POZZOLI, Lafayette, 2005, p. 468.

REFERÊNCIAS

ARAUJO, Luiz Alberto David. A Proteção Constitucional das Pessoas Portadoras de Deficiência. Brasília: Corde, 1994. ASSIS, Olney Queiroz; POZZOLI, Lafayette. Pessoa Portadora de Deficiência: Direitos e Garantias. – 2 ed – São Paulo: Damásio de Jesus, 2005JUNIOR, Roberto Bolonhini. Pessoa Portadora de Necessidades Especiais: Principais Prerrogativas na Legislação Brasileira. São Paulo: Arx, 2004.

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